Família

Desafios e possibilidades para promover o bem-estar do adolescente na quarentena

Desafios e possibilidades para promover o bem-estar do adolescente na quarentena

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A adolescência já é um período no desenvolvimento do indivíduo marcado por uma transição e amadurecimento em diversas ordens, como a biológica/fisiológica, emocional, cognitiva e social. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), tais transformações acontecem entre os 12 e 18 anos de idade. A verdade é que as implicações dessas transformações podem ser estendidas para alguns ou reduzidas para outros, a partir do seu contexto de vida pessoal e social.

Entendemos que a necessidade de pertencer a um grupo estáentre os desafios dessa fase do desenvolvimento. Nesse período, acontece a busca por identidade, que pode passar por um distanciamento momentâneo das primeiras figuras de referência (pais/família) para dar força as próprias escolhas, opiniões e valores. É nesse momento também que surgem nas famílias os maiores desafios ao observar-se que aquele filho/a, antes tão parceiro/a, começa a preferir a turma da sua idade e não mais a companhia dos pais. Lembramos que o grupo de pares é fundamental para o sentimento de aceitação (do outro e de si próprio), eles podem circular em diversos grupos, até encontrar o que mais se identifica. Esse processo pode ser tranquilo para alguns, e, para os mais tímidos, gerar sofrimento decorrente da exclusão e da baixa autoestima.

Os hormônios que estão a todo vapor, são os responsáveis pelos apaixonamentos, o coração acelera ao ver o objeto da paixão. Surgem as paixões platônicas, o desejo pelo sexo oposto e a vontade de viver as ficadas, os namoros e em casos mais extremos, a gravidez na adolescência, que vão acarretar outros desdobramentos bastante desafiadores.

Nos últimos anos, temos o uso das tecnologias, com as mídias sociais que invadem principalmente o mundo dos adolescentes. Uma ferramenta que se usada inadequadamente pode trazer riscos para a saúde física e emocional.

Por isso, a conversa precisa fazer parte da relação dos pais desde a infância, para que na adolescência, esta abertura de conversa, orientações e até aproximações por parte de algum profissional possam acontecer com tranquilidade para auxiliar o adolescente a passar por algum conflito.

As famílias precisam estar atentas, porque existem riscos e desafios reais. Além da nossa própria inclinação para a rebeldia e desobediência, ainda lidamos com as más companhias, o uso indevido das redes sociais, a suscetibilidade a alguns quadros de alteração e humor, e até o início do uso de algumas substâncias psicoativas como álcool e outras drogas. Tudo isso pode levar a um adoecimento psíquico importante, que vai requerer cuidados específicos.

E agora, juntamos todas essas questões e colocamos no mesmo embrulho o nosso contexto atual: pandemia e a quarentena com a suspensão da convivência com os amigos, com a escola, com o/a namorado/a e a ausência e/ou limitação das práticas de esportes e lazer.

Como ficam os ambientes familiares na administração dessa nova rotina, o excesso de tecnologia, a disciplina para o acompanhamento das atividades escolares on-line, as alterações de humor, dentre outras coisas?

O contexto das relações de cada família com seu adolescente, antes da quarentena, pode facilitar ou atrapalhar ainda mais o momento atual. Me refiro a qualidade das relações que já estavam estabelecidas. Não podemos esquecer também que, por mais características comuns que possamos apresentar, cada indivíduo vive seus processos de forma única.

Entenda os principais perfis de adolescentes e veja como lidar com os desafios da quarentena:

  • Maduros:

São conscientes, já se disciplinaram com a rotina das atividades, aproveitam pra fazer cursos, se organizam pelas redes sociais para manter o contato com os amigos. Visualizo esse grupo como os que têm um canal de diálogo mais saudável em casa e conseguem manter mais tranquilidade na convivência.

Ele(a) vive o impacto, mas está seguro no seu ambiente. Vai oscilar seu estado emocional, mas não está trancado num mudo inaccessível. Vai em busca de alternativas para driblar esse período de forma mais saudável. Terá mais motivação para gastar energia física, se for alguém que ama a prática de esportes. Vai querer chutar a bola até dentro do banho. Por ter mais autonomia e responsabilidade para cumprir as atividades da escola, não necessita da vigilância constante dos adultos. Se tem temas de interesse, a essa altura, podem já ter descoberto cursos on-line, aulas preparatórias para o Enem que enriquecerão os seus conhecimentos. Se gostam de festas e de encontrar a turma com regularidade, terá que segurar sua onda e usar ainda mais as tecnologias para conversarem em grupo.

  • Enclausurados:

Para esse grupo, nem mudou tanto assim. Geralmente são os mais tímidos que já viviam na segurança de seus quartos e dependiam da tecnologia para respirar. Com excessos de jogos, gostam de trocar o dia pela noite, e a ausência da rotina externa até ajuda, pois têm mais tempo para dormir.

Nesse pacote, a falta de disposição para fazer as atividades escolares é maior. Se não tinha uma boa rede de amigos, isso não terá tanta mudança, os parceiros dos jogos on-line são sua rede de relacionamento mais próxima. Podem apresentar mais resistência em participar das atividades coletivas da família, como as tarefas domésticas, pela indisposição física. Ao mesmo tempo, vemos aqui uma oportunidade para a família promover esse engajamento doméstico e buscarem aproximação.

  • Apáticos:

Temos também um grupo com características mais intensas de distanciamento social, ou com comportamentos de apatia, e humor muito reservado ou instável. Adolescentes que antes da quarentena já apresentaram episódios com tendência de quadros depressivos, crise de ansiedade, automutilação, tendência suicida, envolvimento com álcool e outras drogas.

Há ainda os que apresentam características de impulsividade para transgressão, com desvio de comportamento. Há os que podem já sofrer de algum tipo de transtorno, como os transtornos que afetam a noção do limite social, como o opositor desafiador, que pode evoluir para um transtorno de conduta (na adolescência). Todos esses podem apresentar um risco eminente de sofrimento psíquico mais agudo. Nesses casos, as famílias precisam estar muito atentas para buscar ajuda profissional (psicólogos e psiquiatras), além de criar uma de rede de apoio. Com certeza, para esse grupo, os desafios nessa quarentena podem ser maiores. E temos também os casos dos Transtornos do Espectro Autista, que já se adaptam a uma rotina mais segura em casa, com pouco contato social.

  • Violados

Há também outro grupo de risco, dos que sofrem abandono e negligência, violência física, psicológica e até sexual, por parte da família, configurando tipos de violência doméstica. Nesses casos, é preciso acionar a intervenção do Estado através de denúncia (Disque 100). O Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) divulgou um conjunto de recomendações para esse período durante de pandemia, baseado no ECA, em defesa das crianças e adolescentes. Dentre as quais, afirma que “as ações em relação às crianças e adolescentes devem reconhecer que a garantia de seus direitos depende também da proteção dos direitos de seus cuidadores primários, vez que o ambiente doméstico deve ser seguro, tanto na perspectiva da saúde física quanto emocional”. ¹

Sendo assim, os pais e responsáveis por essas pessoas em fase tão delicada e especial do desenvolvimento devem estar alertas e atentos aos movimentos que não são muito comuns aos seus filhos. Temos consciência de que esse período tem sido um desafio para todos, e com os nossos adolescentes não é diferente.

Então, vamos pensar juntos em alguns caminhos:

  • Busque um diálogo aberto sobre a situação real, um acolhimento sincero, sobre como lidar com os limites e as frustrações da vida real;
  • Traga à memória aquilo que pode dar esperança. Lembrando das bênçãos de Deus sobre a vida dele(a). Trazendo ao seu coração o sentimento de gratidão pelas coisas que tem, substituindo o lamento pelo que se perdeu;
  • Mostre como a vontade de Deus é sempre boa, perfeita e agradável e como é normalmente em situações difíceis que Deus nos dá oportunidades de crescimento, de reflexão e até um novo recomeço. Temos histórias com grandes lições sobre Jonas, Davi (Golias), José (filho de Jacó), Daniel, etc.
  • Um desafio da nossa geração tem sido exatamente a falta de propósito na vida, a dificuldade em lidar com a frustração. Aproveite essa parada para fazer um alinhamento sobre os verdadeiros propósitos de vida. Precisamos ensinar aos nossos filhos que eles não são um erro do acaso, mas que eles foram feitos por Deus, à sua imagem e semelhança, amados e criados por Deus, e para Deus.
  •  Ajude seu filho a se engajar, de forma segura, em alguma ação de ajuda ao próximo, para que seja sensibilizado aos problemas de outras pessoas.
  • Observe as preferências deles e busquem se aproximar, propor algumas atividades juntos, assistir filmes, jogar jogos de tabuleiros, fazer alguma comida, se envolver em algum projeto juntos, etc.
  • Ajude nossos jovens a gerir suas emoções, podem ter os momentos de tristeza, ansiedade, medo, é normal. Deixem chorar, falar sobre o assunto, escrever, buscar vias saudáveis para expressar seus sentimentos. Se isso passar dos limites, ficando muito constante, procure ajuda profissional.
  • Não sabemos os efeitos que tudo isso terá na formação emocional e subjetiva dos nossos adolescentes, mas tenhamos esperança de que eles sairão mais maduros, conscientes e fortalecidos para enfrentarem a vida, e claro, que teremos uma participação importante nisso.
  • Tenham a tecnologia como aliada para os encontros entre os amigos, mas não descuidem de observarem os conteúdos que acessam e o tempo nas redes.
  • Não esqueçam de descansar, evitar o excesso de informação, se isso faz mal para vocês.
  • Ter uma postura de aceitação à realidade é um passo importante para que depois de se analisar possam buscar alternativas de melhoramento, seja no aspecto econômico e ou emocional, isso diminui a ansiedade.
  • Tente engajá-los nas tarefas domésticas, em algo que possam fazer para ajudar a família, é uma forma de se sentirem úteis.
  • Peça para eles arrumarem suas coisas, seus espaços, isso dá uma sensação de organização interna.
  • Tirem um tempo para vocês, pais. Vocês precisam de um tempo para se organizar, descansar e recarregar as baterias para o dia seguinte.
  • Cuidem-se. Seremos vitoriosos se conseguirmos sobreviver preservando ao máximo nossa saúde emocional.

Por fim, aos pais e filhos, não se cobrem demais, não estamos em rotinas normais, temos que lidar com as nossas dores e frustrações, a realidade econômica, o risco do adoecimento, ufa! Somos humanos e nossos filhos também!

Que possamos buscar em Deus a força que precisamos para viver em abundância todos os dias!

Que possamos passar cada dia com sua necessidade, agradecendo a Deus pela vida e pelas lutas travadas e vencidas daquele dia.

1 http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/legis/covid19/recomendacoes_conanda_covid19_25032020.pdf   

Fernanda Siqueira Ribeiro, Psicóloga Clínica e Educacional, Doutora em Psicologia, Mestre em Psicologia e Especialista em Psicologia da Família e Realidade Social.



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